O mundo inclinou-se à esquerda em 2008. Numa homenagem objetiva aos 190 anos de nascimento de Karl Marx, os grandes feitos do ano que se encerra dão razão às teorias próximas do materialismo histórico clássico.
Se o “tsunami” da Indonésia alterou os movimentos do planeta físico, a crise capitalista de 2008 afetou fortemente o planeta humanístico. O modo de produção dominante, apesar de toda a sua adaptabilidade proverbial, não pode evitar o golpe que extinguiu na prática com o modelo neoliberal, sua forma de expressão recente. A queda do muro da Rua do Muro (“Wall Street”) abalou a ideologia capitalista e custou mais caro do que a queda do muro de Berlim.
O coração do sistema atual foi atingido. Não se trata de um fenômeno periférico. Uma recessão de caráter sistêmico iniciou-se na própria locomotiva do capitalismo dos últimos sessenta anos, os Estados Unidos da América.
O neoliberalismo já vinha sendo desmoralizado por uma série de eventos recentes, tais como o crescimento econômico da China, ainda formalmente, Comunista; a resistência dos governos populares da América do Sul, eleitos e reeleitos já há uma década e a derrota da OTAN em seu ataque camuflado à Federação Russa. Este cenário, sintetizado, obrigou o capitalismo mundial a uma troca de pele custosa, tendo de socorrer-se descaradamente do velho e tão criticado abrigo estatal. A vaca sagrada do mercado livre foi sacrificada sem maiores delongas pelos sacerdotes perjuros da fé na iniciativa privada. A conta do sacrifício, como ocorre em sociedades com dominação de classes, já está sendo repassada aos dominados. Quantias inimagináveis de dinheiro público foram rapidamente jogadas ao abismo da quebradeira dos bancos gigantes nos EUA e na Europa, o que não impediu abalos sísmicos na produção capitalista globalizada.
Com isso iniciou-se a resistência de massas populares de algum tempo conciliadas. Algumas concessões históricas limitadas tiveram de ser feitas pelo sistema dominante, como a eleição de um presidente estadunidense com as características políticas e sociais de Obama e a estatização de bancos na Grã-Bretanha. O que deve ter produzido um certo sorriso no busto de Karl Marx em Londres.