2012, O FILME. UMA ALEGORIA DA CRISE

27 de novembro de 2009

A ciência política tem claro que as tragédias atribuíveis à natureza tem a característica de oportunizar unanimidades partidárias, já que situação e oposição podem eximir-se da responsabilidade do desastre. É aproximadamente este o argumento subjacente ao filme “2012”, lançado agora na primavera do hemisfério sul. Mesmo com um sutil elogio da subversão tibetana, o filme consegue unir melhor a China e os Estados Unidos do que o interesse comum de ambos pelas grandes reservas de dólares do governo comunista-burocrático chinês.

O desejo de atingir o Brasil potência-emergente foi simbolizado na quebra do Cristo Redentor. O que, somado ao esmagamento do governo italiano pela queda da Basílica de São Pedro, talvez indique certo anti-catalocismo do diretor. Progressismo não, pois a atual premiê alemã conservadora foi referida elogiosamente em duas oportunidades.

A salvação na África, posta como destino para as arcas ocidentais, são menos uma referência ao berço darwinista da humanidade do que uma afirmação da corrida desesperada entre os países industrializados e emergentes pelos recursos naturais  do continente negro, em um contexto de finitude próxima do meio ambiente, dada a exploração máxima levada a cabo pela acumulação irracional capitalista.

Walter Benjamim já teorizou que, na falta ou na impossibilidade política da enunciação do conceito, põe-se a alegoria. O naufrágio do neoliberalismo, sacudido pelos vulcões de mobilização popular da América Latina, fez com que a grande crise capitalista de 2008 acabasse, pois, transfigurada no cine-catástrofe de “2012”.

O Brasil e a segunda década do século XXI

27 de novembro de 2009

Vitórias e possíveis avanços na luta de classes internacional

A crise de 2007 foi efeito de uma vitória da periferia capitalista contra o centro do sistema.  Desta vez, os trabalhadores do BRIC conseguiram impedir a prática tradicional dos países centrais que consiste em exportar a crise, jogando sobre os periféricos os maiores ônus das crises sistêmicas.

Tal vitória não atinge diretamente a lógica da acumulação capitalista, mas paralisa corolários importantes. Logo, lança dúvidas sobre a solidez ideológica dominante. O recurso ao Estado, por exemplo, desmoralizou o formato neoliberal da ofensiva capitalista posterior ao final dos anos dourados do pós-guerra.  Foi abalada também seriamente a hegemonia estadunidense, reduzida no rumo a uma mera supremacia militar.

O Brasil dos governos Lula e o arco de governos esquerdistas e centro-esquerdistas populares da América Latina atual cumpriram um papel importante de exemplo efetivo de viabilidade de diminuição das desigualdades com pluralismo político-partidário.

A tarefa agora é generalizar mundialmente o modelo, com a dificuldade adicional da contra-contra-ofensiva dos centros capitalistas dominantes.

Observatório de Assuntos Estratégicos Almirante Aragão

30 de abril de 2009

Registrando o momento de avanço das forças progressistas na América Latina, inclusive com a vitoriosa reeleição de Rafael Correa, no Equador, e a eleição de Maurício Funes em El Salvador, o sítio OFFWAR lança o Observatório de Assuntos Estratégicos Almirante Aragão, homenageando as resistências democráticas no Brasil e no mundo contemporâneo. Mais um pequeno ponto de apoio para o erguimento do Outro Mundo Possível do altermundismo, renovado em Belém, Pará, 2009.Evoé!

A Reconquista do Oeste

15 de janeiro de 2009

Retomada da Reforma Agrária no RS impõe derrota ao latifúndio e ao capital globalizado

 

            A retomada da Reforma Agrária na região da campanha rio-grandense em 2008 é muito significativa. Os onze novos assentamentos na região de São Gabriel  e Alegrete representam uma disputa efetiva pelo uso do território na contemporaneidade, além de possuir um simbolismo ideológico especial.

            A aquisição de terras pelo INCRA naquela parte do pampa é a derrota momentânea, mas importante, de dois setores reacionários e anti-democráticos: o latifúndio semi-feudal e o capitalismo globalizado dos “desertos verdes”, as monoculturas de eucalipto das ditas indústrias papeleiras multinacionais. A aliança de ambos na  Metade Sul do RS  era saudada pelas elites dominantes como a alternativa capitalista viável para vencer a estagnação econômica crônica da região e, sobretudo, derrotar na prática as propostas de reforma agrária apresentadas como solução pelos setores democráticos e populares.  A crise capitalista mundial de 2008 atingiu as papeleiras frontalmente e congelou suas expansões programadas. Desse modo, os grandes proprietários de terra, o mais das vezes muito endividados, viram-se na contingência, desgostosa, de vender as terras ao único comprador restante, o instituto de reforma agrária. Agora, mil e quinhentas famílias proletárias receberão lotes agrícolas e créditos para viverem em condições melhores naqueles lugares quase despovoados, mas próximos de rodovias e de reservas de água.

            É uma vitória momentânea, mas emblemática. A própria mídia capitalista teve de referir a notícia com destaque. Mesmo com as limitações da forma de reforma agrária hoje legalizada no país, tem-se ali um avanço democrático efetivo no território brasileiro.  E os êxitos da aliança existente no Brasil atual entre movimentos sociais democratizantes e governos com viés popular indicam o potencial para outras conquistas dramaticamente necessárias à promoção da igualdade material na sociedade brasileira, reconhecida como uma das menos igualitárias do mundo.

O capitalismo periférico mata gente. Reforma Urbana Urgente!

15 de janeiro de 2009

A classe trabalhadora brasileira tem várias conquistas importantes em sua luta contra a exploração selvagem promovida pelo capitalismo periférico, aqui dominante. Uma que, porém, não foi alcançada é a universalização do acesso à moradia digna. E dificilmente o será sob esse modo social de produção, pois os salários pagos pelos capitalistas brasileiros nunca foram previstos para efetivamente atender de modo geral aquela necessidade civilizatória. 

            De modo que os trabalhadores brasileiros socorrem-se com paliativos. Mas a auto-construção desorientada e as diversas formas de ocupação urbana irregular são, também, toleradas pelo sistema político-econômico como compensação dos pagamentos insuficientes, sequer para a reprodução da força de trabalho.  Isto explica o padrão da expansão urbana no Brasil, uma das maiores e mais rápidas da história mundial. Aqui a regra é a clandestinidade de metade da área construída nas grandes cidades. Ou seja, a maioria da população, na prática, não tem acesso ao mercado urbano formal.

            A ausência de planejamento territorial e urbano efetivo e a permissividade com as irregularidades ambientais, fundiárias e construtivas são funcionais, portanto, para o capitalismo brasileiro. São soluções falsas, barateadoras da mão-de-obra e realmente perigosas para as pessoas. Por isso, tragédias como a do Vale do Itajaí, no final de 2008, não são apenas anunciadas. São sistemicamente armadas, um genocídio a mais na ficha suja do capitalismo.

            A indignação justa, humanista e classista, com esta tragédia não pode ater-se ao moralismo solidário. A luta pela Reforma Urbana deve ser redobrada para que pelo menos tais sacrifícios não sejam em vão.